O expediente da cultura (II)

O expediente da cultura deveria comportar outras lógicas para além do ponto de vista estritamente administrativo na gestão pública. Caso contrário, a agenda cultural municipal esvazia, os teatros fecham as portas e os shows ficam raros em janeiro e fevereiro. Sem falar das iniciativas que penosamente restabeleceram um costume durante o ano e nesse período precisam parar, como espetáculos em praça pública ou sessões de cinema. Na maior parte dos casos, não se trata, vale lembrar, de um amplo conjunto de atividades culturais espalhadas pela cidade que cessa nas férias, mas da interrupção das poucas, únicas e restritas opções culturais centralizadas imprescindíveis ao funcionamento da vida cultural e da programação de lazer. Seria diferente em um município com uma ampla e diversificada oferta cultural que abre mão de uns 10% disso em janeiro.

Esse aspecto se desdobra em pelo menos dois problemas. Em primeiro lugar, denuncia a falta de planejamento municipal, estadual e federal para oferta de opções culturais mesmo em período de férias do quadro administrativo. Se a agenda normal sofre interrupção, poderia existir uma programação alternativa, previamente estruturada, condizente com o período. Caso contrário, vicia-se o comportamento social cada vez mais em torno de opções pouco plausíveis como litoral, clubes e balneários – como se isso esgotasse o repertório humano de possibilidades de lazer e diversão. Novamente, vale lembrar, seria diferente se as cidades não dependessem tanto da agenda cultural oficial, com outras ofertas e ações. Implica pensar o envolvimento indireto, então, de outras entidades de finalidade pública para além de prefeituras e secretarias.

Um segundo problema é que, temporariamente, a administração pública ‘se permite’ restringir, durante férias escolares, o acesso dos cidadãos à cultura e a opções na programação de lazer. Torna-se discutível aí o amplo direito constitucional à cultura se programações e ações simplesmente são interrompidas no período – como se o tratamento à cultura fosse tão sazonal quanto o pagamento do IPTU. Em outros termos, significa uma cidade sutilmente menos disponível aos moradores (nas infinitas possibilidades de circulação e fruição pelo espaço urbano) em pelo menos um mês todo ano. Mais previsível que isso só o fato de que janeiro sempre chega.

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